quarta-feira, 29 de julho de 2009

Transporte público
por Clarice

Parece-me que tem pessoas gastando o tempo que elas não têm. Desde segunda-feira, 27 de julho, a prefeitura de São Paulo mudou as regras dos ônibus fretados:

“A restrição aos ônibus fretados começou a valer nesta segunda-feira e proíbe que esse tipo de veiculo trafegue em uma área de 70 km2 no centro expandido de São Paulo, das 5h às 21h. Segundo a prefeitura, o objetivo da medida é reduzir em 11% a lentidão do trânsito e aumentar a velocidade dos ônibus urbanos.” (Folha online, 27/07/2009)

Eu não consigo entender os rumos que o transporte público brasileiro, paulistano pra ser mais precisa, toma. Todo mundo sabe como é penoso e demorado depender de ônibus, metrô ou trem numa cidade como São Paulo.

Para citar alguns exemplos, falando do metrô:
- São Paulo tem 61,3Km de extensão e outros 20Km estão em obras de expansão (
www.metro.sp.gov.br). Ocupa a 43ª posição no ranking mundial.
- Londres tem a maior extensão: 402Km (
www.tfl.gov.uk).
- Nova York tem 368Km (
www.mta.info), ocupando a 2ª posição
- Paris tem 213Km (
www.ratp.fr), ocupando a 8ª posição.

Nem preciso me prolongar nestes números. Além de custar caro (R$2,55 bilhete unitário do metrô), a experiência prática nos mostra como é frágil o nosso sistema de transporte público. Não está na hora de termos o foco na ampliação necessária e urgente do nosso metrô, na eficácia e expansão do serviço de ônibus e também na expansão e adequação dos serviços de trem? (Vale lembrar que hoje também saiu a notícia de que as obras do trem expresso para o aeroporto de Guarulhos foram suspensas pela Justiça.)

Eu, sinceramente, não sei o que está por trás do serviço dos ônibus fretados, quais as irregularidades, mas acredito que há uma grande parcela da população que se beneficia deles, deixando seus carros em casa e, assim, colaboram com o trânsito e com a redução da emissão de gases poluentes. Concordo que os pontos de parada devam ser em locais apropriados para a fluidez do trânsito, para o respeito às residências e aos estabelecimentos. Porém, não podemos nos esquecer dos trabalhadores que precisam chegar de maneira segura ao seu trabalho. Não podemos deixar de pensar que com o aumento da distância da caminhada ponto – escritório, o grande o problema é a segurança e não a preguiça.

O que mais chamou a atenção nos últimos dois dias e meio é que algumas vias já foram liberadas, expondo a fragilidade do projeto e hoje uma notícia impressionante na Folha Online:

Quem andou por São Paulo nestes dias já viu as novas placas indicando as proibições. Quanto dinheiro já foi gasto sem um planejamento coerente? Por que este tipo de mudança não tem um período de teste ou de adaptação? Até quando vamos viver esta situação tão delicada e frágil do nosso transporte público?

sexta-feira, 24 de julho de 2009

A grama do vizinho
por Clarice

Andar de metrô, trem, ônibus ou até mesmo ficar sentada numa sala de espera, me desperta um interesse quase incontrolável: ler a revista, jornal ou livro da pessoa que está ao lado. Pode ser também quando estou usando um computador com outros ao lado. Às vezes é quase impossível controlar a espiada. Juro, parece que ela fez a maior descoberta, tem a melhor fofoca ou escolheu bem aquele livro que eu, sozinha, seria incapaz de escolher.

Daí, você dá aquelas olhadelas disfarçadas para tentar ler e basta o vizinho perceber que você está espiando para dar aquela virada na página que faz você perder o auge da notícia. Ah, que sacanagem!!!

Agora experimenta pegar o mesmo jornal, revista que aquela pessoa estava lendo e ler confortavelmente... Não tem a menor graça!!! A notícia vira uma notícia informativa como qualquer outra.

Acho que o interessante é o desafio do tempo (antes que a pessoa vire a página) e da distância (como a minha visão está boa!) Por que a gente é assim? Por que a grama do vizinho parece ser sempre mais verdinha do que a nossa?

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Aprendendo com o cidadão
por Lygia

São Paulo é uma cidade com milhares de vantagens para se viver. Tem, também, é claro, inúmeras desvantagens. Muita gente, muitos carros, muita sujeita, muita violência, muita miséria.

Todo mundo sabe que quando chove por aqui é um caos total. Dentre outras coisas, os bueiros entopem de lixo e as enchentes tomam conta das ruas e de um monte de casas também.

Nesses dias, o que mais se vê no trânsito (eu vejo pelo jornal, porque sempre volto para casa quando a chuva aperta) são as pessoas muito irritadas, enfiando a mão na buzina. Motoqueiro quebrando o espelhinho dos carros, os carros empurrando as motos para fora da pista e por aí vai.

O trânsito, as pessoas irritadas e a buzina de todos os lados já fazem parte do cenário da cidade. O caos está sempre no limite de se instalar, mas nos outros dias que não chove, dá para a gente entender de onde sai, pelo menos uma parte, da sujeira da cidade.

Não importa o carro, o status e nem o bolso, o cara (ou a cara) que se acha completamente fora e inatingível daquilo que acontece com nós, pobres mortais, está lá de vidro escancarado, com o braço para fora, fumando o seu precioso cigarrinho.

Até aí, tá tudo bem (pra mim, pelo menos) porque no fim desse episódio, a bituca do cara que fuma vai para o lixo do carro dele, que ele separou só para essas situações. Certo?

Errado, né? A bituca vai direto para as ruas. Mas, tudo bem. Porque é SÓ uma bituca e ela é bem pequenininha. E tudo bem também, porque ele deve fumar só um cigarro por dia e, não tem nenhum problema, porque junto com ele não existem mais um milhão de pessoas (chutando bemmm baixo) que fazem a mesma coisa diariamente.

E eu que devo ser chata mesmo, porque além da bituca, ninguém costuma jogar latinhas, papéis, garrafas e essas coisinhas que não causam dano para fora da janela. Ufa, ainda bem.

É uma pena que esse comportamento cidadão não seja apenas privilégio dos nobres paulistanos. Tem gente para representá-los fielmente no país todo. Eu presenciei uma cena dessas que a gente tem muito orgulho de ver lá na Bahia. Porque quando não tem rua, a gente pode jogar o que não quer mais onde der mesmo e o cara do meu lado, jogou uma LATINHA de cerveja no MAR. Sim, no mar. A lata de lixo estava ao lado dele, mas ele não viu, porque não tem problema nenhum jogar só uma latinha no mar.

E daí no dia da chuva a gente vê pela televisão: enchente em São Paulo (na Bahia, no Espírito Santo...) carros ilhados, motoristas subindo no capô para se protegerem da água da chuva (que diga-se de passagem é cristalina), milhares de quilômetros de congestionamento, a água invadindo as casas....

Mas quem será que é o responsável por tudo isso? Só pode ser São Pedro mesmo que manda chuva demais, porque o cara que eu vi só jogou uma bituca, o outro só jogou uma latinha e, o outro, só uma garrafa e, o outro, só uma sacola e, o outro, só um pente velho e outro, e o outro....

terça-feira, 7 de julho de 2009

Embasbacada
por Clarice

Nos meus tempos de escola, como aluna, tiveram início (pelo menos na minha vida e ignorando as épocas de censura, etc.) as discussões sobre a qualidade da programação da TV. Naquela época, quem estreava era o “Programa do Ratinho”.

As atrocidades nos assustavam, a maneira irreverente de apresentar o feio era chocante e a ousadia de tratar temas polêmicos de maneira tão direta impressionava... Alguns anos se passaram, uns dez anos, e, se eu não estou enganada, as coisas só pioraram. E muito.

Chegamos ao tempo do sucesso a qualquer custo. Claro que sucesso está longe de ser qualquer reconhecimento pelo belo, pelo nobre ou pelos benefícios que pode trazer. Sucesso é pontuar no ibope, é trazer mais patrocinadores, mais telespectadores e, claro, muito mais dinheiro.

Acontece que por muitas vezes eu me vejo sentada de frente para a televisão com o primeiro crime já cometido: ter apertado o botão on do controle remoto. Daí, estou num momento em que não tenho nada muito definido para fazer e começo a passear pelos canais da TV a cabo ou não, pouco importa. E, de repente, lá estou eu: fascinada por alguma porcaria qualquer. Não, não é que eu esteja gostando daquilo que eu estou vendo. Sinto algo quase perverso, como se eu estivesse me forçando a acreditar que aquilo realmente está acontecendo na minha frente. E por alguns instantes fico ali, estática, mirando o tema em questão.

É melhor eu exemplificar: no domingo à noite, se você ligar no Pânico, vai entender um pouco do que eu estou falando. Sim, eles podem até ter graça, quando eu era mais nova até ria mais com eles, mas quando você começa a questionar um pouquinho mais sobre a vida e o mundo, realmente assusta ver alguém se submetendo às mais incríveis atitudes estúpidas para passar cinco dicas de sei lá o que. O apresentador leva choque, se queima, senta em pregos, se machuca, se humilha e só ele e a produção do programa devem saber o porquê disso tudo.

Bom, mas pra quem não quiser esperar até o final de semana, pode viver a experiência da “embasbacação” em qualquer dia da semana, como, por exemplo, em “A Fazenda”. Por favor, alguém gostaria de contar a quantidade de “piiis” que a edição coloca em cada palavrão que os “artistas” dizem? E outra, as pessoas só brigam naquele lugar. Não é possível que a gente já não veja violência o suficiente fora dali.

Não me conformo que aquilo dê audiência. Ou será que é algo do tipo: nossa, até os artistas brigam? Mas daí aparecem as gatas de lingerie, a mulher melancia com um macacão que já deve ter nascido no corpo dela, porque é impossível aquilo entrar e sair de alguém, e ainda tem também a Hebe dando selinho em todos os convidados. Será que ninguém falou pra ela que a gripe suína está ai?? E por que agora todos os artistas têm que se cumprimentar com selinho??

Ai, ai, ai... Não sei, mas também não quero refletir sobre isso. Meu foco é pensar neste poder de fascinação, de nos fazer ficar muitas vezes preso frente ao ridículo. Às vezes eu tenho a sensação de que uma hora aquilo vai ser revelado como “pegadinha” e nada daquilo é verdade. A verdade é que esta falta de reação pode ser aquela gotinha de água que faltava pra tomar alguma atitude para questionar tudo isso. A passividade pode se transformar numa ação de mudança, porque questionar já é mudar, já é querer sair do lugar-comum. Enfim, não é só o conteúdo que importa, mas o nosso comportamento perante o que nos é mostrado.

Agora já passam das 21h e eu preciso ir pra Índia. Off. Desligo.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

O lapso da mãe natureza
por Lygia

Alguém já viu uma propaganda (acho que de refrigerante) que o cara chega perto da mulher, todo interessado, e ela toma o maior susto porque ele ganha uma cauda de pavão? A mensagem final era que o cara deveria agradecer à natureza por não ser assim ou qualquer coisa do tipo.

Eu não acho que os caras têm que agradecer por isso. Não mesmo. Acho que, no fundo, eles seriam muito beneficiados se, na hora da paquera, ganhassem penas de pavão.

Na verdade, eu tenho um pouco de dó dos homens na balada... (em outros lugares também, mas isso não vem ao caso agora). Obviamente não tenho dó de todos. Tirando os que eu também sinto um pouco de raiva, tem uns outros que eu aceito e alguns poucos, que eu gosto de verdade.

Os que eu aceito são os que estão na balada para se divertir, que até se aproximam das mulheres, mas não vivem em função disso. Os tímidos também são ok, porque são tímidos mesmo e quando tomam coragem de se aproximar eu já estou indo embora e tudo bem. Pra eu gostar mesmo, o cara tem que saber se virar nos 30. Mas, o foco do texto, não são eles. Eu quero mesmo é falar sobre a grande massa masculina frequentadora das baladas.

A massa é basicamente constituída de caras feios que se acham bonitos, engraçados que são engraçados porque sabem que são feios, bonitos que se acham muito bonitos e são chatos. O ponto comum é que a maioria está na balada para “pegar”. O verbo mais popular do momento já diz tudo. Então, porque o objetivo de vida desses caras é pegar, eles tentam de tudo para convencerem a ala feminina de que valem a pena.

Você (mulher, no caso) está na balada e, ao direcionar o olhar para a parte mais cheia de gente, cruza SEM QUERER o olhar com um santo que está SEM QUERER na sua frente. Pronto, bastou.

O ser humano imediatamente vira uma boia inflável e cria raízes naquele lugar. E é nessa hora que eu começo a ter MUITA dó.

O cara não sabe mais o que fazer. Ou ele fica olhando sem parar, com olhar 43, tipo gatinho; ou dança desengonçadamente, o que é muito frequente, porque homens não dominam muito a arte da dança; ou vai se aproximando aos poucos...(que nem o Cascão e o Cebolinha vestidos de arbusto para seguir a Mônica sem ela perceber)... O cara estava longe e, quando você menos espera, ele está ali, grudado em você.

Nessas horas, eu tenho certeza absoluta de que as penas do pavão poderiam salvar o momento. O cara olhou para a mulher, gostou, PLUFT. Uma grande cauda, bela e pomposa, apareceria nas costas dele e, então, tudo estaria resolvido. Ele não precisaria mais inventar nenhum xaveco horrível, não ia precisar dançar de um jeito estranho, nem falar alto para chamar atenção. Nada disso ia ser necessário, porque a mulher ia ver de longe suas lindas plumas e entenderia aquilo como expressão de interesse.

Se ela gostasse das penas e do resto também, simplesmente daria um sorriso meigo e o cara poderia, então, se aproximar como uma pessoa normal. Daí, ia poder agir normalmente, ficando parado, ao invés de dançar, falando coisas normais e tendo atitudes normais também. E todo mundo sairia ganhando.

É uma grande injustiça a mãe natureza ter escolhido dar uma cauda tão visível e expressiva para os pavões e ter deixado os homens tão desamparados. Por isso, eles têm que fazer de tudo para aparecer ... e é uma pena (de dó mesmo, não de pavão) porque eles estão agindo de um jeito cada vez mais estranho...

...Problemas que o sortudo do pavão jamais teria que enfrentar...