Embasbacada
por Clarice
Nos meus tempos de escola, como aluna, tiveram início (pelo menos na minha vida e ignorando as épocas de censura, etc.) as discussões sobre a qualidade da programação da TV. Naquela época, quem estreava era o “Programa do Ratinho”.
As atrocidades nos assustavam, a maneira irreverente de apresentar o feio era chocante e a ousadia de tratar temas polêmicos de maneira tão direta impressionava... Alguns anos se passaram, uns dez anos, e, se eu não estou enganada, as coisas só pioraram. E muito.
Chegamos ao tempo do sucesso a qualquer custo. Claro que sucesso está longe de ser qualquer reconhecimento pelo belo, pelo nobre ou pelos benefícios que pode trazer. Sucesso é pontuar no ibope, é trazer mais patrocinadores, mais telespectadores e, claro, muito mais dinheiro.
Acontece que por muitas vezes eu me vejo sentada de frente para a televisão com o primeiro crime já cometido: ter apertado o botão on do controle remoto. Daí, estou num momento em que não tenho nada muito definido para fazer e começo a passear pelos canais da TV a cabo ou não, pouco importa. E, de repente, lá estou eu: fascinada por alguma porcaria qualquer. Não, não é que eu esteja gostando daquilo que eu estou vendo. Sinto algo quase perverso, como se eu estivesse me forçando a acreditar que aquilo realmente está acontecendo na minha frente. E por alguns instantes fico ali, estática, mirando o tema em questão.
É melhor eu exemplificar: no domingo à noite, se você ligar no Pânico, vai entender um pouco do que eu estou falando. Sim, eles podem até ter graça, quando eu era mais nova até ria mais com eles, mas quando você começa a questionar um pouquinho mais sobre a vida e o mundo, realmente assusta ver alguém se submetendo às mais incríveis atitudes estúpidas para passar cinco dicas de sei lá o que. O apresentador leva choque, se queima, senta em pregos, se machuca, se humilha e só ele e a produção do programa devem saber o porquê disso tudo.
Bom, mas pra quem não quiser esperar até o final de semana, pode viver a experiência da “embasbacação” em qualquer dia da semana, como, por exemplo, em “A Fazenda”. Por favor, alguém gostaria de contar a quantidade de “piiis” que a edição coloca em cada palavrão que os “artistas” dizem? E outra, as pessoas só brigam naquele lugar. Não é possível que a gente já não veja violência o suficiente fora dali.
Não me conformo que aquilo dê audiência. Ou será que é algo do tipo: nossa, até os artistas brigam? Mas daí aparecem as gatas de lingerie, a mulher melancia com um macacão que já deve ter nascido no corpo dela, porque é impossível aquilo entrar e sair de alguém, e ainda tem também a Hebe dando selinho em todos os convidados. Será que ninguém falou pra ela que a gripe suína está ai?? E por que agora todos os artistas têm que se cumprimentar com selinho??
Ai, ai, ai... Não sei, mas também não quero refletir sobre isso. Meu foco é pensar neste poder de fascinação, de nos fazer ficar muitas vezes preso frente ao ridículo. Às vezes eu tenho a sensação de que uma hora aquilo vai ser revelado como “pegadinha” e nada daquilo é verdade. A verdade é que esta falta de reação pode ser aquela gotinha de água que faltava pra tomar alguma atitude para questionar tudo isso. A passividade pode se transformar numa ação de mudança, porque questionar já é mudar, já é querer sair do lugar-comum. Enfim, não é só o conteúdo que importa, mas o nosso comportamento perante o que nos é mostrado.
Agora já passam das 21h e eu preciso ir pra Índia. Off. Desligo.
por Clarice
Nos meus tempos de escola, como aluna, tiveram início (pelo menos na minha vida e ignorando as épocas de censura, etc.) as discussões sobre a qualidade da programação da TV. Naquela época, quem estreava era o “Programa do Ratinho”.
As atrocidades nos assustavam, a maneira irreverente de apresentar o feio era chocante e a ousadia de tratar temas polêmicos de maneira tão direta impressionava... Alguns anos se passaram, uns dez anos, e, se eu não estou enganada, as coisas só pioraram. E muito.
Chegamos ao tempo do sucesso a qualquer custo. Claro que sucesso está longe de ser qualquer reconhecimento pelo belo, pelo nobre ou pelos benefícios que pode trazer. Sucesso é pontuar no ibope, é trazer mais patrocinadores, mais telespectadores e, claro, muito mais dinheiro.
Acontece que por muitas vezes eu me vejo sentada de frente para a televisão com o primeiro crime já cometido: ter apertado o botão on do controle remoto. Daí, estou num momento em que não tenho nada muito definido para fazer e começo a passear pelos canais da TV a cabo ou não, pouco importa. E, de repente, lá estou eu: fascinada por alguma porcaria qualquer. Não, não é que eu esteja gostando daquilo que eu estou vendo. Sinto algo quase perverso, como se eu estivesse me forçando a acreditar que aquilo realmente está acontecendo na minha frente. E por alguns instantes fico ali, estática, mirando o tema em questão.
É melhor eu exemplificar: no domingo à noite, se você ligar no Pânico, vai entender um pouco do que eu estou falando. Sim, eles podem até ter graça, quando eu era mais nova até ria mais com eles, mas quando você começa a questionar um pouquinho mais sobre a vida e o mundo, realmente assusta ver alguém se submetendo às mais incríveis atitudes estúpidas para passar cinco dicas de sei lá o que. O apresentador leva choque, se queima, senta em pregos, se machuca, se humilha e só ele e a produção do programa devem saber o porquê disso tudo.
Bom, mas pra quem não quiser esperar até o final de semana, pode viver a experiência da “embasbacação” em qualquer dia da semana, como, por exemplo, em “A Fazenda”. Por favor, alguém gostaria de contar a quantidade de “piiis” que a edição coloca em cada palavrão que os “artistas” dizem? E outra, as pessoas só brigam naquele lugar. Não é possível que a gente já não veja violência o suficiente fora dali.
Não me conformo que aquilo dê audiência. Ou será que é algo do tipo: nossa, até os artistas brigam? Mas daí aparecem as gatas de lingerie, a mulher melancia com um macacão que já deve ter nascido no corpo dela, porque é impossível aquilo entrar e sair de alguém, e ainda tem também a Hebe dando selinho em todos os convidados. Será que ninguém falou pra ela que a gripe suína está ai?? E por que agora todos os artistas têm que se cumprimentar com selinho??
Ai, ai, ai... Não sei, mas também não quero refletir sobre isso. Meu foco é pensar neste poder de fascinação, de nos fazer ficar muitas vezes preso frente ao ridículo. Às vezes eu tenho a sensação de que uma hora aquilo vai ser revelado como “pegadinha” e nada daquilo é verdade. A verdade é que esta falta de reação pode ser aquela gotinha de água que faltava pra tomar alguma atitude para questionar tudo isso. A passividade pode se transformar numa ação de mudança, porque questionar já é mudar, já é querer sair do lugar-comum. Enfim, não é só o conteúdo que importa, mas o nosso comportamento perante o que nos é mostrado.
Agora já passam das 21h e eu preciso ir pra Índia. Off. Desligo.
Um comentário:
Nooossa. Ontem eu assisti Pânico e pensei exatamente a mesma coisa. Que coisa ho-rro-ro-sa! É mesmo chocante!
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