O milagre da criação
por Lygia
Pelo título, parece que eu vou falar de algo divino. Na verdade, eu vou, mas não exatamente sobre o que parece.
É que por esses dias eu estava pensando que a gente precisa ser muito criativo para viver a vida. Em São Paulo então, você precisa ser a criação personificada.
De manhã, você sai para o trabalho e os 20 minutos que você sempre levava para chegar, em um belo dia (no caso, aqui em SP em muitos “belos e não tanto assim” dias), se multiplicam e viram horas. Obviamente choveu ou algum carro quebrou ou teve um acidente às 6 da manhã do outro lado da cidade que parou todo o resto da cidade, durante um dia inteiro. E você, na hora, é claro, fica puto, nervoso, odeia viver aqui. Mas, depois, se tiver sabedoria e vontade de preservar seu estômago de uma úlcera, resolve relaxar, aumentar o som, pedir o jornal que entregam na rua (que serve para distrair o trouxa que vai passar o dia no engarrafamento), falar no celular, checar emails, meditar, respirar, cantar.
Na hora do almoço, se você não tem o privilégio de ir para sua casa comer e se na sua casa não tem alguém que resolva isso por você (e a grande maioria não tem nem um nem outro), você precisará inventar o que vai comer. Parece bobo, né? Mas não é. Todo santo dia, você tem que escolher onde ir, com quem ir, o que está com vontade de comer, se vai pagar muito, pouco, se quer pegar fila....Eu acho que tem que ser bem criativo pra fazer isso todos os dias.
E você passa o dia no trabalho, provavelmente tendo que inventar soluções, resolver problemas, criar programas, produtos e afins. Criando muito.
E você passa o dia no trabalho, provavelmente tendo que inventar soluções, resolver problemas, criar programas, produtos e afins. Criando muito.
E daí, chegou a hora de ir embora para casa que NUNCA, imagino eu, seja aquela que você achou que ia ser. É mais tarde e você não jantou e também não fez exercícios e aí precisa inventar rapidamente o que fazer, se vai comer, se vai malhar, se vai dormir.
E se é seu rodízio então, haja criatividade! Três horas não parecem nada, mas no dia do rodízio elas são horas eternas...porque justamente naquele dia você podia ter saído mais cedo, porque teve menos trabalho para fazer. Podia, MAS, não vai, vai precisar criar, inventar o que fazer com o tempo livre - que você não é nada livre para escolher o que fazer com ele.
E aí depois de muitos dias vivendo as coisas semelhantes de trânsito, trabalho, rodízio e afins chega o esperado final de semana. Se não chove, o que não é raro, você que mora em São Paulo, capital, cheia de oportunidades, não precisará fazer nenhum esforço para ser feliz, certo?
Mais ou menos. Você vai precisar ser criativo de novo. Se resolve ir pra praia vai precisar ser muito estrategista para fugir do trânsito (na ida e na volta). Se ficou, vai continuar precisando montar estratégias para ir ao restaurante e conseguir sentar a tempo de não morrer de fome, para ir ao parque e ter onde sentar, para ir ao cinema, teatro e outras atividades culturais, e realmente conseguir entrar.
Criatividade pura, da hora que acorda a hora que vai dormir. Se você não mora em São Paulo não morra de inveja. A gente é criativo mesmo, em bando. Não porque queremos, somos obrigados, para conseguir viver no meio de toda essa falta de criatividade que está virando esse lugar. Criativos por pura falta de opção.