quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Telefonia
por Lygia


Eu não sei por que tenho telefone fixo.

Na verdade, na verdade, eu sei sim. A minha mãe acha importante, diz que é bom para o caso de uma emergência (e tenho uma amiga que concorda com ela também). Acho que o celular pode ser mais útil nessas horas...Mas, enfim...

Eu mesma não uso meu telefone fixo. Quem usa mesmo e gosta muito são os operadores de telemarketing, atendentes e afins. Eles adoram discar o meu número....

De vez em quando, bem de vez em quando, eu atendo o telefone de casa. E sempre sei que nessas horas, vou precisar utilizar meu velho arsenal de desculpas. E eu sou ótima nelas: tenho uma patroa whorkaholic que não pára em casa (sai as 6 da manhã e volta as 9 da noite), não posso passar nenhuma informação pelo telefone porque minha patroa tem medo de sequestro, o telefone mudou, não tem ninguém com esse nome e etc....

Eu não sei como tantas pessoas, em tantos lugares diferentes podem ter acesso ao meu telefone pessoal. Acho um absurdo a pessoa ligar na sua casa, no horário que convém a ela, para ocupar o tempo que você não tem para lhe dedicar e ainda para querer te fazer acreditar que você precisa de alguma coisa que você tem certeza absoluta que não quer.

Esses dias eu atendi um coitado que trabalha com telemarketing. Coitado porque ele deve escutar cada coisa das pessoas que eu tenho dó. Ele me ofereceu um seguro pessoal, sei lá do que. Eu disse que não precisava, que minha mãe (isso é verdade) tinha dito que não ia querer dinheiro se eu morresse. Ele muito perspicaz me explicou que não era seguro de vida, era seguro pessoal (sua burra!!!!). Nas palavras dele:

- A senhora pode estar tomando (perceba o gerúndio característico) um café com um amigo, quando, de repente, um louco em um carro desgovernado pode invadir a cafeteria, atingir a senhora e, então, a senhora pode ficar inválida. A senhora terá que se aposentar e como aposentadoria nesse país é muito pequena, a senhora não terá como se sustentar e...

Meu DEUS!!!!!!!!!! Fiquei até com medo de sair de casa naquele dia. Como a pessoa consegue ser tão trágica para te convencer?


Eu, apesar de ter achado que realmente tudo aquilo podia acontecer comigo se eu colocasse o pé para fora de casa, dei risada. Disse para o moço que a história dele era realmente muito boa, mas que não ia precisar do tal seguro mesmo.

Enfim, eu pago a assinatura de um telefone que eu não posso usar direito e para poder atender as pessoas que eu realmente quero atender tive que comprar uma secretária eletrônica para me prevenir dessas ligações. Estou ilhada na minha própria casa.

Se a pessoa ainda me ligasse no final do dia: Dona Lygia, a senhora quer pão francês, peito de peru, queijo, chocolate?? Ou no final do mês: A senhora está precisando de sabonete, papel higiênico, molho de tomate?? Vamos estar enviando o mais rápido possível.

Estaria tudo resolvido: minha mãe ficaria feliz de ter razão, porque o telefone teria mesmo uma função emergencial, eu ia poder aposentar a secretária eletrônica e meus amigos poderiam parar de fazer papel de bobo, gritando com ela para eu poder ser informada de que posso atender o telefone da minha própria casa.