terça-feira, 4 de agosto de 2009

Nintendo DS
por Clarice

Pela Europa é muito comum ver famílias inteiras viajando. Quero dizer famílias com três ou quatro filhos e nenhuma babá acompanhando. Tirando aquelas que fazem um quebra-galho pras famílias e normalmente são estudantes estrangeiras que aproveitam esta função como oportunidade de viver um tempo fora, acredito que esta profissão nem exista por lá.

O que pude observar é que tem um companheiro novo de viagem para as famílias aflitas por controlar seus filhotes desesperados: Nintendo DS. Para quem não sabe é um video game portátil, tipo game boy da década de 1990. Ah! Com ele, pelo menos algum membro da família vai te dar uma folga. O ser humano se arma deste jogo, agarra com as duas mãos e começa a jogar. Dali pra frente nada mais no mundo interessa, só o que acontece ali naquela telinha.

A criança mal esboça qualquer tipo de emoção, mas o seu mundo para. E não é aquela parada gostosa de se ver, como quando você se depara com algo incrível. É aquela porcaria de alienação que te faz deixar de ver o mundo em volta e conseguir apertar o off daquela coisa...

Estava fazendo um passeio pelas Highlands escocesas, praticamente onde Judas perdeu as botas, é lá que fica o lago Ness, lembra do monstro do lago Ness? Bom, tudo para dizer que não estava em um lugar típico, que as pessoas sempre vão como turismo. Quem vai pra lá vai uma vez e pronto, acredito eu. E lá, no meu micro-ônibus, tinha uma criaturinha canadense com os seus 11/12 anos de idade. Ela viajava com sua mãe e o seu querido Nintendo DS.

Adoro crianças e adolescentes, sempre trabalhei com eles, quero dizer que tenho muita paciência com eles e com seu estilo de viver... Mas, confesso que esta menina tinha uma carinha de boba que só a tecnologia é capaz de produzir. No primeiro dia da viagem, ela conseguia desligar (ou colocar no pause) o seu joguinho nas paradas e descer para apreciar as paisagens.

No segundo (e último) dia, acho que a criatura cansou ou evoluiu demais no joguinho que foi capaz de passar o dia inteiro no maldito carro. Só quero destacar que micro-ônibus de turismo costuma ser composto de seres humanos de nacionalidades distintas e imprevisíveis, neste caso, noruegueses, suecos, canadenses, indianos e eu, brasileira. Com isto quero dizer que temos cheiros e costumes tão variados que te obrigam a descer do carro em qualquer oportunidade para esticar as pernas e sentir o ar fresco.

Bom, mas voltando à menina, neste dia ela só foi capaz de descer do carro nas paradas longas que envolviam refeições. Não preciso nem dizer que ela era acima do peso. Onde estava mesmo a mãe desta menina? Sentadinha ao lado dela. E a cada parada ela perguntava pra filhota “Are you coming sweetheart?” Óbvio que não. Pensa: a pessoa arruma as malas, sai de casa, cruza o oceano, se enfia num passeio pra ficar no carro jogando???

Até que em uma parada eu escuto a mãe dizer que agora ela deveria descer, se esticar um pouco e deixar o jogo de lado. Ufa!! Desci do ônibus feliz. Doce ilusão. O ato não foi consumado. Olhei para trás e lá estava ela sentada e jogando. Não, ela não quis descer e não, a mãe não foi assertiva com a filha.

Álbum de férias: uma família e duas viagens bem distintas. Com o destaque que para uma delas não era preciso nem sair de casa. Limites, pais queridos, limites. É só disso que as crianças precisam. Ah! E é isso que elas querem também.

Um comentário:

Unknown disse...

Cla
Muito bom este seu texto. Eu fico realmente impressionada com apatia dos pais atualmente. E pior, morrendo de medo de me tornar algo parecido deste retrato tão bem escrito por você!