domingo, 30 de agosto de 2009

Albergue
por Clarice

Viajar é uma das melhores coisas para fazer na vida. Os motivos são muitos, mas um que me fascina especialmente é ver que existe vida em qualquer lugarzinho, por mais pacato, distante ou simples que seja.

Nascida e crescida em São Paulo, sou acostumada a uma vida 24 horas no ar. Tudo a qualquer hora, para qualquer gosto, está à disposição nesta Cida. Esta vida de praticidade “full time” me faz esquecer que é possível viver de uma maneira muito simples.

Neste momento em que escrevo, viajo em um trem cruzando a Escócia rumo à Londres. Chove muito lá fora (ou estão me sacaneando, ou esta região é a mais chuvosa que eu já vi...). Pela janela, vejo pastos com ovelhas, muitas ovelhas! Para quem adora momentos de “comer e não fazer nada”, junte-se às ovelhas. Ah! Mas mesmo com a chuva elas continuam lá, pastando... Também passo por campos de trigo, de vez em quando vejo o mar e algumas poucas casinhas...

Bom, mas o que mais me intrigou nos últimos dias foi o estilo “albergue” de viajar. Não gosto, nunca gostei, mas de repente, lá estou eu enfiada mais uma vez nesta situação. Sabe aquela empolgação de “ai, é só para dormir mesmo...” Juro, não sei como tem gente que ADORA fazer isto. Tá, eu sei que na maior parte das vezes o dinheiro é que manda, mas tem sim um fã clube desse estilo de viajar. Não é possível gostar de dormir em beliche, a menos que você tenha oito anos de idade, ou de dormir com estranhos (não é aquele gato que você conheceu na balada e mesmo assim já é muito estranho) e, o pior, dividir um banheiro com amostras grátis de pelos e fios de cabelo.

Com este cenário quase completo, você resolve dormir depois daquele dia cansativo para se recuperar para o próximo agito. E, então, aquele ser que você não conhece, não convidou e não quer nunca mais ver na vida começa a RONCAR!!! Se o ronco daquele namorado fofo já incomoda, imagina uma gorda estranha roncando e dormindo ao seu lado? Vale lembrar que ela está dormindo e você, não! Daí, você começa a pensar no que fazer para dormir, enfia a cabeça embaixo do travesseiro, faz barulho pra ver se ela se mexe e claro, nestas horas o ipod está quebrado e não dá nem para ouvir música. Sem contar na aflição das horas do relógio estarem passando e menos tempo para dormir...

E no dia seguinte, aquela porca acorda feliz, descansada e pergunta “Did you sleep well?” Ah, não!!! Ela só pode estar sacaneando. Ela sabe que ronca e quer testar minha educação. “Yes, I did. And you?”. Claro, porque eu sou muito educada. E ela responde “Very well, thanks!”

Ódio! Enfim, talvez desta vez eu aprenda que não importa quantas noites, o importante sim é sempre dormir bem. Não tem mais esta de que “é só para dormir”. Dormir é sagrado e ocupa quase um terço do nosso dia...

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