“Não queio!”
por Clarice
Era um final de tarde de sábado e eu estava na Livraria da Vila, vendo e lendo os livros novos na parte Infanto-Juvenil. Por estar no Cidade Jardim, acho que é possível (vi)ver coisas inimagináveis.
Primeira impressão: muitas crianças (ufa, que bom!!) e muitos adultos de branco. Como não era uma ala hospitalar, Reveillón ou qualquer manifestação de Candomblé, só podia ser uma tribo: as babás. Agora elas estão por toda parte e em qualquer momento. Papais e mamães já não podem mais sentar ao lado do filho e ler um livrinho à toa, como quem quer curtir um sábado em família.
Então, lá estão elas, cuidando daqueles que não foram trazidos ao mundo por elas, mas que agora são seres sob sua responsabilidade. Perto de mim, duas crianças lindinhas, novinhas e que adoravam tirar os livros da prateleira. No fundo, este é o grande passatempo deles por lá. E a leitura? Bom, esta nem é tão importante. No geral, as frases mais comuns são: “Antônio, para de bagunçar senão eu vou chamar o seu pai.”; “Júlia, olha lá a moça da livraria vendo você bagunçar tudo, ela vai vir brigar com você.”
Quem vai brigar com quem? As vendedoras estão lá fazendo o seu trabalho, talvez pensando na hora de ir embora, talvez olhando para aquele amontoado de livros no chão, jogados e pensando em quanto trabalho vai dar para guardar tudo aquilo. Ou talvez não estejam pensando em nada disso... Já aqueles outros seres ameaçadores “papai e mamãe”, estão circulando pela grande loja, fazendo alguma coisa que não permita infanto-juvenis por perto. A verdade é que eles, normalmente, não dividem o mesmo espaço.
Ah, mas quando dividem... Daí, já foi outra cena que eu pude curiosamente observar. Era uma pequerrucha de uns dois anos de idade com o pai e a mãe na sala infanto-juvenil. Muito animadinha, a menina tirava muitos livros da estante e punha em cima da mesinha. Que alegria que aquilo produzia nela. Cada livro, um sorrisinho...
Aquilo estava muito bonitinho de se ver... Mas, eis que surge ele... O papai... Com dois DVDs na mão e, feliz, fala para a filhota: Olha o que o papai tem aqui: “Hi5!!!” Eu, já pronta para a reação, pensei que a menina fosse se manifestar da maneira mais “Cartoon Network” possível para uma criança... Para minha surpresa (e alegria), do auge de seus dois anos e pouco de idade, ela pronuncia a seguinte frase: “Não queio!” E para contornar a decepção do pai, ainda coube uma manifestação de indignação: “Não quer, filha?? É o Hi5 que você adora!!”.
É, não teve jeito... Como uma luz no fim do túnel, vejo a mãe pronta para contornar aquela situação desconfortável. “Acho que é melhor a gente ver algum DVD de filme, ela já pode começar a acompanhar filminhos.” É, mamãe, ela já pode ampliar seus horizontes para além da TV a cabo...
Nova tentativa da família. Já próximos a todos os DVDs disponíveis, papai e mamãe começam a mostrar as possibilidades à pequerrucha. Interessante pensar no poder de escolha de uma criança de dois anos. Ela vê, opina e decide?? Era verdade tudo aquilo?
Até que o papai, num esforço de ser o melhor pai do mundo, faz a oferta irrecusável: “Pode escolher DOIS que o papai vai te dar, filha!!”. Nossa, ela podia escolher dois DVDs num dia qualquer de sua vida em mais um passeio ao shopping. Não me parecia ser seu aniversário, estamos longe do Natal, não é dia das crianças, nem Páscoa, nem qualquer outra festividade. Tudo bem, estou sendo radical, por que não presentear quem amamos quando temos condições, né? Mas logo a resposta veio, daqueles que ainda exalam um pouco de inocência: “Não queio, papai!”
Não sei que fim este impasse teve. Para mim, até ali o final tinha sido o mais surpreendente e feliz que eu poderia ter tido e preferi ir embora tentando imaginar o raciocínio daquele bebê: Não papai, eu tenho só dois anos e não quero substituir amor por presente. Eu já estou feliz de estar passeando com você e com a mamãe. Por hoje, isso me basta.
Talvez, daqui uns anos, ela comece a aceitar os presentes que o papai vai trazer das suas longas viagens como prova de afeto. Que pena, papai! Era muito melhor quando ela ainda dizia “Não queio!”. Seu amor ainda era insubstituível.
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